Hoje faz um ano que aterrissei no El Prat e senti pela última vez aquela dor sinistra na cervical que me acompanhava havia meses. Foi logo depois que o avião tocou a pista, quando me levantei e peguei minha carry-on. Nunca mais voltei a senti-la. Depois de ter passado mais de dois meses padecendo no Brasil, meu estado era uma espécie de euforia contida pelo cansaço. Era uma segunda-feira de manhã, fazia um pouco de frio e estava ensolarado, como quase sempre. No táxi que me levava até o apartamento da rua Bailén, os prédios da Gran Via me enchiam olhos e me faziam lembrar da minha ex. Minha ex-cidade. Buenos Aires.
Um ano de Barcelona e tenho que admitir: ainda sinto sindo saudades.
Quanto mais cidades conheço, mais me convenço de que não há nenhuma como Buenos Aires. Talvez existam cidades mais bonitas, mais seguras, mais charmosas, mais cosmopolitas, com mais opções para gastar dinheiro, mas nenhuma é como Buenos Aires. Eu poderia dizer que Buenos Aires tem aquele je ne sais quoi, mas, honestamente, acho todos sabemos o que Buenos Aires tem.
Buenos Aires tem o poder de fazer você não querer voltar para casa depois ter passado uma semana de férias em um AirBnb em Palermo. É um lugar que te abraça e te dá tudo. Até um pouco de sofrimento, mas lá no fundo a culpa nem é dela. E também tem isso de que às vezes é preciso saber deixá-la ir. Ou ir embora dela. Se entregar a outro lugar. No meu caso, Barcelona.
Para mim, Barcelona é tipo aquele boy novo que apareceu na sua vida, elegante, bem-sucedido, estável mental e financeiramente, mora sozinho no próprio apartamento, tem carro e dinheiro, o genro que toda sogra sempre sonhou. Mas é um pouco monótono e sem muito senso de aventura. Se considera progressista, mas não se interessa muito por política e todas as suas viagens foram dentro da Europa. Gosta de voltar para casa antes da uma, inclusive nos sábados, não exagera no álcool e não se arrisca a provar comida halal de sete euros. E adora sushi.
Buenos Aires, por outro lado, é aquele ex sexy, porém meio tóxico, que te deixou louca. Te levou para as melhores aventuras e te fez viver as melhores experiências. Te tratou mal algumas vezes, te fez chorar muitas outras, te meteu em vários problemas e você quis mandá-lo à merda um milhão de vezes. Não tem um centavo no bolso, mas te paga um choripán na costanera e, de vez em quando, amassa umas pizzas incríveis. Já mochilou por toda a América Latina e pelo Sudeste Asiático, e se envolve em todos os assuntos do momento.
Buenos Aires é fumar as flores que o seu amigo cultivou na laje. Barcelona é se tornar sócio de um clube de maconha e comprar uns prensados por lá. Às vezes, inclusive se tornar sócio sem querer. Duas vezes. Em dois clubes diferentes. Pode acontecer.
Um ano depois, estou satisfeita com minha decisão, apesar de muito pouco ter saído como planejado.
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