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Querida eu, esta é você no seu 35º aniversário. |
Era 28 de dezembro de 2023, eu comia um chocolate remanescente do Natal, amolecido por aquele clima subsaariano, e só conseguia pensar se realmente sobreviveria até a última semana de fevereiro. O ar condicionado já quase não dava conta de manter fresco aquele diminuto quarto de hóspedes que recebia sol direto desde o meio-dia. Da janela, através dos losangos da rede de proteção que impedia a gata selvagem de se suicidar, eu podia ver os turistas carregando suas cadeiras, seus guarda-sóis, seus JBLs e seus coolers cheios de latas de Skol caminhando felizes em direção à praia Central. Eu sabia que eu estava ali só de passagem, mas era difícil não questionar que estupidez eu tinha feito com a minha vida naquele passado 10 de dezembro.
Se eu pudesse escrever um e-mail de dois parágrafos para minha eu de um ano atrás, reservaria uma frase para contar que deu tudo certo com a minha chegada a Barcelona e pularia imediatamente para dezembro de 2024. Porque se eu contasse que passaria meu aniversário número 35 em um hotel boutique com vista para as montanhas em um povoado medieval francês, e que no Natal comeria coisas que eu nem sabia que existiam a metros de um aquecedor, me daria a força necessária para continuar vivendo.
2024 foi a loucura mais louca da minha vida, e olha que em 2015 eu já tinha largado meu trabalho, minha emergente carreira de jornalista e minha vida no Brasil para ir a Buenos Aires fazer não-sabia-bem-o-que. Mas cruzar o Atlântico pela primeira vez na vida para me instalar em uma cidade que escolhi quase ao azar é algo que considero um pouco mais ousado.
Dando uma olhada na minha pequena lista de resoluções para este ano que termina, que constava de somente sete itens, percebo que pude cumprir apenas três. Longe de me sentir frustrada, achei graça do rumo que as coisas tomaram, porque mesmo que eu não tenha alcançado a maioria dos meus objetivos, acabei conquistando coisas que há um ano, quando escrevia a lista, eu nem sonhava que fosse querer conquistar. E outras que não sabia que precisava. Nem que experimentaria sensações e sentimentos completamente desconhecidos, e que compartilharia momentos com pessoas que eu tampouco esperava conhecer.
Um ano pode ser muito e pode ser nada, depende do ponto de vista, mas uma coisa é certa: é tempo suficiente para que tudo, absolutamente tudo, mude.
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